A estimativa é que o Brasil produza por ano 170 mil toneladas de retalhos. O maior produtor é São Paulo que responde por 30% da indústria têxtil. Atualmente, 80% do material ainda vão parar nos lixões do país. Um desperdício que poderia estar gerando renda e promovendo o estabelecimento de mais negócios sustentáveis.

Esse cenário está começando a ser transformado, a partir de soluções que, aos poucos, são implementadas na cadeia têxtil. Tais iniciativas têm destinado resíduos de tecidos para o reaproveitamento em novos processos produtivos.

Uma situação que demonstra a mudança do cenário ocorreu no II EBA – Encontro da Bioarquitetura – no final de 2013, em Nova Friburgo, Região Serrana do Rio de Janeiro, patrocinado pelo SEBRAE. O objetivo do evento foi levantar discussões e trocas de experiências sobre formas efetivas de unir desenvolvimento, sustentabilidade e manejo de matérias primas nos mais diversos tipos de edificações e também no manejo e reaproveitamento de resíduos.

Nessa edição foi destaque a preocupação com as consequências da produção de toneladas de resíduos da indústria de moda íntima local e o Sindvest, em parceria com o Instituto Serrano de Economia Criativa, realizou a oficina do Projeto Eco Moda, durante o EBA.

São Paulo também já está articulando o melhor aproveitamento dos resíduos vindos da produção têxtil. O projeto, pioneiro na capital paulista, tem foco no bairro do Bom Retiro. A região possui 1200 confecções que produzem 12 toneladas de resíduos têxteis por dia.

A coleta, realizada de forma desorganizada e sem preocupação com a preservação ambiental, passou a integrar uma iniciativa do Sinditêxtil-SP, por meio da criação do Retalho Fashion. Um programa dividido em três etapas, que irá formalizar o trabalho de catadores e reaproveitar os resíduos descartados por intermédio de empresas recicladoras.

Em Pernambuco, no Polo de confecções do Agreste, também agrega iniciativa para o aproveitamento dos retalhos de jeans. Mensalmente são doze milhões de metros de ourelas do tecido que, descartados por mês, passaram a ser objeto de uma parceria entre o SEBRAE local, a Associação Mulheres de Argila e o estilista pernambucano Melk Zda.

O estilista, que aposta na sustentabilidade e cria coleção de acessórios e peças de decoração para solucionar a questão socioambiental da região, estudou a matéria-prima e pensou nas possibilidades de aproveitamento e aplicação das mesmas. Com isso, propôs a criação de um novo tecido com os retalhos e, posteriormente, a geração de produtos de casa e acessórios, sendo esse novo tecido empregado no todo ou como detalhes. Essa decisão foi baseada em estudo de mercado, que definiu como foco a aplicação em produtos para serem usados em casas, restaurantes e hotéis.

Retalhos_CentralUm artigo, apresentado no 9º Colóquio de Moda, o maior congresso científico de moda no Brasil relata o resultado dessa intervenção de design, que possibilitou determinar uma estratégia de sustentabilidade ambiental, econômica e social, através da interdisciplinaridade entre design, moda, tecnologia e artesanato.

Essa reversão do desperdício que possibilita a entrada de um negócio sustentável no mercado demonstra ser uma estratégia de produção eficaz. Mais que isso, imprescindível, como conclui o autor do artigo ao afirmar que o valor simbólico adquirido nessa produção se expressa em um conceito de sustentabilidade e representatividade cultural, gerando um novo nicho de mercado.

Da mesma forma, ao trabalhar com as habilidades, interesses e crenças da população local e a capacitando para todo o processo de criação e produção certifica-se que este processo não só é economicamente viável, mas também é socialmente relevante.

Finalmente, atua transformando a sociedade com a participação efetiva dos seus membros, valorizando a comunidade, motivando seus componentes, apresentando e ensinando ofícios e tornando-os economicamente participativos.

Por tudo isso, os produtos e suas ações são mercadologicamente desejados, culturalmente representativos, socialmente aceitos, economicamente viáveis, produtivamente eficazes e ecologicamente corretos.

Em resumo, o relacionamento entre o design, a moda, o artesanato, a tecnologia e a sustentabilidade demonstra ser uma estratégia de produção eficaz e imprescindível.

É relevante destacar que o retalho de tecido é a principal matéria prima para a produção de barbantes e fios de rede e que hoje, esse segmento, em vez de aproveitar o que sobra das confecções, é obrigado a importar sobras de tecidos!